Pressões de enchimento do VE na fibrilação atrial: 5 erros que mudam o laudo

Como aplicar o algoritmo de 2025 em FA — média de batimentos e os parâmetros de desempate (strain atrial, S/D e IMC > 30) — a partir de um caso real.

Tipo de conteúdo
Insight prático
Nível
Residente R3 / cardiologista jovem
Formato
5 armadilhas + bandeiras vermelhas
Leitura
6 minutos

Mulher de 80 anos, hipertensa, com fibrilação atrial permanente de resposta controlada, chega com dispneia aos esforços. A pergunta é cotidiana: a dispneia vem de pressões de enchimento do VE elevadas?

No eco de repouso: FEVE 62%, átrio esquerdo aumentado (IVAE 64 mL/m²), E/e′ septal 16, velocidade de regurgitação tricúspide (VRT) 2,8 m/s, PSAP 40 mmHg, TRIV 55 ms e strain de reservatório do átrio esquerdo (SAEr) ~13%. Cada peça aponta para o mesmo lugar — mas só porque os parâmetros certos foram medidos, do jeito certo, e o algoritmo foi levado até o fim.

A FA é onde a avaliação das pressões de enchimento mais escorrega. A variabilidade batimento a batimento, a ausência de onda A e a dilatação atrial crônica derrubam parte das ferramentas do ritmo sinusal. As diretrizes de 2025 (ASE) e 2024 (BSE) reorganizaram exatamente isso. Abaixo, os cinco erros mais frequentes — e como cada um se resolve. Não substitui treinamento formal; é um lembrete de bolso para o próximo laudo de FA.

As 5 armadilhas

1 · AQUISIÇÃO · VARIABILIDADE RR

Medir um único batimento

O QUE ACONTECE

Estimar E, E/e′ e tempo de desaceleração (TD) a partir de um ciclo isolado em FA. O ciclo escolhido cai numa pausa longa (E alta) ou num intervalo curto (E baixa) e a estimativa sai super ou subestimada.

POR QUE ACONTECE

Em FA o enchimento depende do intervalo RR precedente — RR longo enche mais o VE e eleva a E; RR curto faz o oposto. Sem ritmo regular, um único batimento não representa a hemodinâmica média do paciente.

COMO EVITAR

  • Fazer a média de 5–10 ciclos cardíacos consecutivos para cada parâmetro
  • Medir com frequência cardíaca controlada (< 100 bpm)
  • Preferir ciclos com intervalos RR semelhantes entre si, evitando as pausas extremas
  • Reconhecer que menor variabilidade no fluxo mitral já tende a acompanhar pressões elevadas

BANDEIRA VERMELHA

Laudo de função diastólica em FA construído sobre a medida de um único ciclo.

2 · ALGORITMO · ONDA A AUSENTE

Aplicar o algoritmo do ritmo sinusal

O QUE ACONTECE

Tentar graduar disfunção diastólica por E/A ou usar critérios dependentes da onda A (relação E/A, duração da onda A, Ar–A) em um paciente que não tem contração atrial.

POR QUE ACONTECE

Na FA não há sístole atrial organizada — não existe onda A. Os parâmetros e os graus I/II/III do fluxograma sinusal não foram desenhados para esse cenário e perdem sentido fisiológico.

COMO EVITAR

  • Usar o conjunto validado para FA na Etapa 1: E ≥ 100 cm/s, E/e′ septal ≥ 11, VRT > 2,8 m/s (ou PSAP > 35 mmHg) e TD ≤ 160 ms
  • Contar quantos desses parâmetros estão alterados, em vez de buscar um grau
  • Nenhum ou um → pressões normais; três ou mais → elevadas; dois → seguir para o refinamento
  • Lembrar que IMC > 30 kg/m² reforça o cenário de ICFEp

BANDEIRA VERMELHA

Tentar classificar o grau de disfunção diastólica — o segredo é estimar se há ou não pressões elevadas.

3 · ÁTRIO ESQUERDO · CRONICIDADE

Concluir pressão elevada só pelo átrio esquerdo dilatado

O QUE ACONTECE

Ver um IVAE aumentado (no caso, 64 mL/m²) e fechar “pressões de enchimento elevadas” sem mais nada para sustentar.

POR QUE ACONTECE

Na FA o átrio esquerdo remodela e dilata cronicamente pela própria arritmia, de forma relativamente independente da pressão do momento. O volume informa cronicidade, não a hemodinâmica atual.

COMO EVITAR

  • Tratar o IVAE como contexto/marcador de cronicidade, não como prova isolada
  • Ancorar a decisão nos parâmetros funcionais (E/e′ septal, VRT, TD) e nos parâmetros de refinamento
  • Aplicar a regra explícita das diretrizes: o volume do AE isoladamente não é diagnóstico
  • Desconfiar quando o AE grande é a única evidência disponível

BANDEIRA VERMELHA

A única peça a favor de pressão elevada é o átrio esquerdo dilatado.

4 · REFINAMENTO · DESEMPATE

Parar no “indeterminado” sem usar strain atrial e S/D

O QUE ACONTECE

Com exatamente dois parâmetros alterados na Etapa 1, marcar “indeterminado” e encerrar o laudo — sem refinar.

POR QUE ACONTECE

A Etapa 2 (desempate) é justamente onde a FA se resolve, mas o strain atrial e a relação S/D ainda não fazem parte da rotina de muitos serviços, então o exame para antes da hora.

COMO EVITAR

  • Medir o strain de reservatório do átrio esquerdo: SAEr < 18% apoia pressões elevadas
  • Avaliar o fluxo venoso pulmonar: S/D < 1 reforça o diagnóstico
  • Integrar os dois antes de assinar “indeterminado”

BANDEIRA VERMELHA

Laudo “indeterminado” em FA sem strain atrial nem S/D medidos.

5 · E/e′ · PONTO DE CORTE

Usar o ponto de corte de E/e′ do ritmo sinusal

O QUE ACONTECE

Aplicar o limiar sinusal de E/e′ médio ≥ 14 ao paciente em FA e tranquilizar-se com um valor “normal” de 12–13.

POR QUE ACONTECE

Em FA o desempenho do E/e′ é mais fraco e o ponto de corte é outro — E/e′ septal ≥ 11 já sinaliza. Transportar o ≥ 14 do ritmo sinusal subestima sistematicamente.

COMO EVITAR

  • Usar o corte específico de FA (E/e′ septal ≥ 11), e não o ≥ 14 sinusal
  • Tratar o E/e′ como evidência de apoio, nunca como árbitro isolado
  • Combinar com VRT/PSAP e TD na contagem da Etapa 1
  • Recorrer aos parâmetros de desempate (SAEr, S/D, IMC > 30) quando o E/e′ ficar na faixa intermediária

BANDEIRA VERMELHA

Paciente em FA rotulado como “normal” apenas porque o E/e′ ficou abaixo de 14.

Para incorporar hoje

3 hábitos que mudam o laudo de FA

  1. Em todo eco de FA, faça a média de 5–10 ciclos com FC < 100 bpm antes de medir qualquer parâmetro diastólico — é a base de tudo o que vem depois.
  2. Quando der “indeterminado” (dois critérios), não pare: meça SAEr e S/D — são os parâmetros de desempate que fecham o caso em FA.
  3. Trate o volume do átrio esquerdo como contexto de cronicidade, jamais como prova isolada de pressão elevada.

Referências

  1. Nagueh SF, et al. ASE 2025. Recommendations for the Evaluation of Left Ventricular Diastolic Function by Echocardiography and for HFpEF Diagnosis: An Update from the ASE. J Am Soc Echocardiogr 2025;38(7):537–569.
  2. Robinson S, et al. BSE 2024. The Assessment of Left Ventricular Diastolic Function: Guidance and Recommendations from the British Society of Echocardiography. Echo Res Pract 2024;11(1):16.
  3. Lofrano-Alves MS, et al. ABC Imagem Cardiovascular 2026. Como Eu Faço a Avaliação Ecocardiográfica das Pressões de Enchimento do Ventrículo Esquerdo. Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc 2026;39(2):e20260026.
  4. Nagueh SF, et al. ASE/EACVI 2016. Recommendations for the Evaluation of Left Ventricular Diastolic Function by Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr 2016;29(4):277–314.
  5. Lababidi H, et al. 2025. New Algorithm for Estimating Left Ventricular Filling Pressure by Echocardiography. Circulation 2025;152(7):424–435.

Conteúdo educacional. Não substitui treinamento formal em ecocardiografia nem julgamento clínico individualizado.

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