O laudo do TEP ganhou uma gramática — PE-RADS v2026
Olá! A semana trouxe quatro documentos que fazem a mesma coisa: organizam a informação sem tomar a decisão. Um sistema de laudo que padroniza a frase mas não escolhe o tratamento, uma IA que mede mas não assina, um posicionamento que separa fonte de dose, e um consenso que troca a pergunta em vez de responder a antiga. Bom plantão. 🫀
★ Destaque da semana
O laudo do TEP ganhou uma gramática — PE-RADS v2026
Saiu em julho o PE-RADS v2026, o primeiro sistema padronizado de laudo e dados para tromboembolismo pulmonar agudo em angio-TC e angio-RM (Chest, 2026). Ele classifica o paciente numa escala ordinal de 0 a 4 pela localização do trombo mais proximal e acrescenta modificadores numa ordem fixa — categoria / exceção / VD / trombo — de modo que "PE-RADS 4/RV+/T+" deixa de ser descrição livre e passa a ser uma frase com sintaxe.
O corte de ventrículo direito ficou em razão VD/VE ≥ 1,0, associado a HR 3,5 (IC 95% 1,6–7,7) para desfecho adverso intra-hospitalar; o painel preferiu 1,0 a 0,9 para privilegiar especificidade. O mesmo modificador RV+ pede leituras diferentes conforme a categoria: em 1/RV+ o TEP dificilmente é a única causa do VD aumentado; em 4/RV+ ele é a provável causa principal.
O que muda para quem recebe o exame: o laudo passa a dizer, de forma comparável entre serviços, onde está o trombo e como está o VD. O que o sistema não faz: decidir o tratamento. A ausência de T+ não exclui trombo em câmaras direitas, e a escala não mede carga trombótica nem oclusão. É um practice guideline sem classes de recomendação nem níveis de evidência — vocabulário comum, não conduta.
Imagem cardiovascular · IA
A IA já mede o seu eco. Quem assina é você.
A British Society of Echocardiography publicou seu posicionamento sobre inteligência artificial no laboratório de eco (Echo Research and Practice, 2026), e a escolha metodológica é o que interessa: em vez de listar promessas, o documento aloca cada aplicação numa escala TRL (Technology Readiness Level) de nove níveis. Guia de aquisição e medidas automáticas aparecem em TRL 9 — já implantados. Triagem e geração de laudo ficam em TRL 1 a 2 — bancada.
O alvo declarado é a variabilidade interobservador da FEVE, que a BSE cita em ±14% a partir de estudos prévios; em quimioterapia cardiotóxica, essa margem produz atraso desnecessário de tratamento. Entre os alertas do documento: viés de automação, treino em população pouco diversa, vias regulatórias que podem dispensar evidência prospectiva e responsabilidade legal por dano ainda não definida.
A regra que o texto não relativiza: a IA é ferramenta de aumento — interpretação crítica e decisão final permanecem com o profissional. O escopo é o NHS; nada aqui foi extrapolado para o cenário regulatório brasileiro.
Prevenção cardiovascular
Café não é vilão — e também não é remédio
O posicionamento da AHA sobre cafeína e doença cardiovascular (Circulation, 2026) faz o que o paciente não pede mas a consulta precisa: separa fonte de dose. Até 400 mg de cafeína por dia — cerca de 3 a 5 xícaras de 240 ml de café preto, sem açúcar nem aditivos — é o teto citado para a maioria dos adultos.
Energético não herda esse dado. Um energy shot traz 135 a 233 mg por 100 ml, contra 32 a 70 mg por 100 ml do café coado comum: três a quatro vezes mais concentrado. E na pergunta que sempre volta — café na fibrilação atrial — o documento registra um ensaio randomizado em consumidores habituais em que o café com cafeína reduziu a ocorrência de FA, e o mesmo dado aumentou as extrassístoles ventriculares.
A ressalva é do próprio documento: a maioria da pesquisa em humanos é observacional, confundimento é limitação central, e um posicionamento não faz recomendação de tratamento. Gestação está fora do escopo do material.
Insuficiência cardíaca
Revascularizar na IC deixou de ser reflexo
Um consenso do European Journal of Heart Failure (2026) revisa o que a revascularização entrega na IC com coronariopatia na era da terapia medicamentosa moderna — e desloca a pergunta. O consenso em si não publica números; os dados abaixo vêm dos dois ensaios que ele discute.
No REVIVED-BCIS2 (NEJM 2022), ICP em 700 pacientes com FE ≤ 35% e viabilidade demonstrada não alterou morte por qualquer causa ou internação por IC: 37,2% vs 38,0%, HR 0,99 (IC 95% 0,78–1,27), p = 0,96, mediana de 41 meses. No STICHES (NEJM 2016), a CRM reduziu mortalidade total ao longo de 9,8 anos de mediana: 58,9% vs 66,1%, HR 0,84 (IC 95% 0,73–0,97) — mas o recrutamento foi de 2002 a 2007, antes da terapia atual.
A ordem que o consenso propõe: otimizar terapia medicamentosa e dispositivo primeiro; se o que domina é sintoma de IC, não invadir; se a angina persiste, aciona o heart team. A pergunta que decide não é quanto está a FE — é se ainda há angina depois da terapia otimizada.
Use isso hoje
Antes de iniciar terapia por suspeita de ICFEp no ambulatório, estime a probabilidade em vez de decidir por impressão. O escore H2FPEF usa seis variáveis que você já tem em mãos: obesidade, fibrilação atrial, idade, número de anti-hipertensivos, E/e′ e pressão sistólica de artéria pulmonar. Cada ponto quase dobra a chance — OR 1,98 (IC 95% 1,73–2,30).
De 0 a 1 ponto, afasta. De 2 a 5, peça o exame adicional antes de tratar. De 6 a 9, confirma. Só então vem a pergunta seguinte, que é a que muda a conduta: qual fenótipo está na sua frente.
Ressalvas que o escore carrega: é de centro único e sem validação externa (Reddy et al., Circulation 2018 — AUC 0,841 na derivação, n = 414; 0,886 na validação, n = 100); BNP normal não exclui ICFEp; não vale para o paciente já congesto e não define etiologia.