O laudo do TEP ganhou uma gramática — PE-RADS v2026

Edição de domingo
2 de agosto de 2026
Temas
Imagem cardiovascular • Prevenção cardiovascular • Insuficiência cardíaca
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5 minutos

Olá! A semana trouxe quatro documentos que fazem a mesma coisa: organizam a informação sem tomar a decisão. Um sistema de laudo que padroniza a frase mas não escolhe o tratamento, uma IA que mede mas não assina, um posicionamento que separa fonte de dose, e um consenso que troca a pergunta em vez de responder a antiga. Bom plantão. 🫀

★ Destaque da semana

O laudo do TEP ganhou uma gramática — PE-RADS v2026

Saiu em julho o PE-RADS v2026, o primeiro sistema padronizado de laudo e dados para tromboembolismo pulmonar agudo em angio-TC e angio-RM (Chest, 2026). Ele classifica o paciente numa escala ordinal de 0 a 4 pela localização do trombo mais proximal e acrescenta modificadores numa ordem fixa — categoria / exceção / VD / trombo — de modo que "PE-RADS 4/RV+/T+" deixa de ser descrição livre e passa a ser uma frase com sintaxe.

O corte de ventrículo direito ficou em razão VD/VE ≥ 1,0, associado a HR 3,5 (IC 95% 1,6–7,7) para desfecho adverso intra-hospitalar; o painel preferiu 1,0 a 0,9 para privilegiar especificidade. O mesmo modificador RV+ pede leituras diferentes conforme a categoria: em 1/RV+ o TEP dificilmente é a única causa do VD aumentado; em 4/RV+ ele é a provável causa principal.

O que muda para quem recebe o exame: o laudo passa a dizer, de forma comparável entre serviços, onde está o trombo e como está o VD. O que o sistema não faz: decidir o tratamento. A ausência de T+ não exclui trombo em câmaras direitas, e a escala não mede carga trombótica nem oclusão. É um practice guideline sem classes de recomendação nem níveis de evidência — vocabulário comum, não conduta.

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Imagem cardiovascular · IA

A IA já mede o seu eco. Quem assina é você.

A British Society of Echocardiography publicou seu posicionamento sobre inteligência artificial no laboratório de eco (Echo Research and Practice, 2026), e a escolha metodológica é o que interessa: em vez de listar promessas, o documento aloca cada aplicação numa escala TRL (Technology Readiness Level) de nove níveis. Guia de aquisição e medidas automáticas aparecem em TRL 9 — já implantados. Triagem e geração de laudo ficam em TRL 1 a 2 — bancada.

O alvo declarado é a variabilidade interobservador da FEVE, que a BSE cita em ±14% a partir de estudos prévios; em quimioterapia cardiotóxica, essa margem produz atraso desnecessário de tratamento. Entre os alertas do documento: viés de automação, treino em população pouco diversa, vias regulatórias que podem dispensar evidência prospectiva e responsabilidade legal por dano ainda não definida.

A regra que o texto não relativiza: a IA é ferramenta de aumento — interpretação crítica e decisão final permanecem com o profissional. O escopo é o NHS; nada aqui foi extrapolado para o cenário regulatório brasileiro.

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Prevenção cardiovascular

Café não é vilão — e também não é remédio

O posicionamento da AHA sobre cafeína e doença cardiovascular (Circulation, 2026) faz o que o paciente não pede mas a consulta precisa: separa fonte de dose. Até 400 mg de cafeína por dia — cerca de 3 a 5 xícaras de 240 ml de café preto, sem açúcar nem aditivos — é o teto citado para a maioria dos adultos.

Energético não herda esse dado. Um energy shot traz 135 a 233 mg por 100 ml, contra 32 a 70 mg por 100 ml do café coado comum: três a quatro vezes mais concentrado. E na pergunta que sempre volta — café na fibrilação atrial — o documento registra um ensaio randomizado em consumidores habituais em que o café com cafeína reduziu a ocorrência de FA, e o mesmo dado aumentou as extrassístoles ventriculares.

A ressalva é do próprio documento: a maioria da pesquisa em humanos é observacional, confundimento é limitação central, e um posicionamento não faz recomendação de tratamento. Gestação está fora do escopo do material.

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Insuficiência cardíaca

Revascularizar na IC deixou de ser reflexo

Um consenso do European Journal of Heart Failure (2026) revisa o que a revascularização entrega na IC com coronariopatia na era da terapia medicamentosa moderna — e desloca a pergunta. O consenso em si não publica números; os dados abaixo vêm dos dois ensaios que ele discute.

No REVIVED-BCIS2 (NEJM 2022), ICP em 700 pacientes com FE ≤ 35% e viabilidade demonstrada não alterou morte por qualquer causa ou internação por IC: 37,2% vs 38,0%, HR 0,99 (IC 95% 0,78–1,27), p = 0,96, mediana de 41 meses. No STICHES (NEJM 2016), a CRM reduziu mortalidade total ao longo de 9,8 anos de mediana: 58,9% vs 66,1%, HR 0,84 (IC 95% 0,73–0,97) — mas o recrutamento foi de 2002 a 2007, antes da terapia atual.

A ordem que o consenso propõe: otimizar terapia medicamentosa e dispositivo primeiro; se o que domina é sintoma de IC, não invadir; se a angina persiste, aciona o heart team. A pergunta que decide não é quanto está a FE — é se ainda há angina depois da terapia otimizada.

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Use isso hoje

Antes de iniciar terapia por suspeita de ICFEp no ambulatório, estime a probabilidade em vez de decidir por impressão. O escore H2FPEF usa seis variáveis que você já tem em mãos: obesidade, fibrilação atrial, idade, número de anti-hipertensivos, E/e′ e pressão sistólica de artéria pulmonar. Cada ponto quase dobra a chance — OR 1,98 (IC 95% 1,73–2,30).

De 0 a 1 ponto, afasta. De 2 a 5, peça o exame adicional antes de tratar. De 6 a 9, confirma. Só então vem a pergunta seguinte, que é a que muda a conduta: qual fenótipo está na sua frente.

Ressalvas que o escore carrega: é de centro único e sem validação externa (Reddy et al., Circulation 2018 — AUC 0,841 na derivação, n = 414; 0,886 na validação, n = 100); BNP normal não exclui ICFEp; não vale para o paciente já congesto e não define etiologia.

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