A FE normalizou. Pode parar o remédio?
Olá! O fio da semana é a distância entre o que o exame mostra e o que ele prova. Uma função ventricular que normalizou sem que a doença tenha ido embora, uma cintilografia que responde a outra pergunta, um algoritmo novo que reclassifica um em cada quatro laudos e uma placa que encolhe na imagem. Quatro situações em que o número está certo e a conclusão pode não estar. Bom plantão. 🫀
★ Destaque da semana
A FE normalizou. Pode parar o remédio?
FE de 28% que subiu para 52%. Paciente assintomático, quatro classes na receita, e a pergunta que vem sozinha na consulta. Dois ensaios randomizados testaram exatamente isso — retirar a terapia depois da recuperação da função ventricular — e chegaram a respostas opostas.
O TRED-HF (Lancet 2018) retirou a terapia em 51 pacientes com cardiomiopatia dilatada em remissão. Em 6 meses, 11 (44%) do braço de retirada recidivaram, contra nenhum do braço que manteve — Kaplan-Meier 45,7% (IC95% 28,5–67,2), p = 0,0001, sem óbitos nos dois grupos. Na fase de crossover, 25 dos 26 que seguiam em tratamento também tentaram retirar: 9 recidivaram (KM 36,0%, IC95% 20,6–57,8).
O WITHDRAW-AF (Eur Heart J 2026) fez a mesma pergunta em 60 pacientes com cardiomiopatia mediada por fibrilação atrial, 97% já ablacionados. A FE se manteve ≥ 50% em 90% de quem retirou contra 100% de quem manteve — OR 1,18 (IC95% 0,27–2,82), p = 0,47; FE por ressonância 58% contra 59% (p = 0,236).
Os dois não se contradizem: a pergunta era outra. Na dilatada idiopática, a causa continua lá — retirar reacende a doença. Na cardiomiopatia por fibrilação atrial com ritmo controlado, a causa foi removida. Função recuperada é remissão, não cura — a menos que você consiga nomear a causa e dizer que ela saiu.
TRED-HF, Lancet 2018 (PMID 30429050) · WITHDRAW-AF, Eur Heart J 2026 (PMID 40830055). Ambos com amostra pequena — 51 e 60 pacientes — e populações distintas; nenhum foi desenhado para desfecho clínico duro.
Amiloidose · diagnóstico
A cintilografia não diagnostica amiloidose AL
A diretriz de diagnóstico da amiloidose de cadeia leve da American Society of Hematology (Blood Advances 2026) traz 12 recomendações GRADE, elaboradas por painel de 22 especialistas e 1 paciente. Duas delas desfazem um erro que circula na cardiologia.
A recomendação 1 (forte, certeza moderada) fixa a triagem: imunofixação sérica, imunofixação urinária e cadeias leves livres — os três juntos, não um deles. A recomendação 5 (forte, certeza moderada) é explicitamente contra usar cintilografia óssea para diagnosticar AL. Cintilografia serve à ATTR e, pela recomendação 6 (forte, moderada), só depois de excluída discrasia de células plasmáticas e com SPECT — razão coração/contralateral ≥ 1,5 isolada não fecha ATTR sem captação miocárdica confirmada.
Para quem faz imagem, a recomendação 12 (forte, certeza baixa) combina biomarcadores e eco com strain: a poupança apical tem sensibilidade de 72% — boa para levantar a suspeita, insuficiente para descartar.
Imagem cardiovascular · função diastólica
O laudo "indeterminado" saiu de cena. E os pacientes que estavam nele?
As recomendações ASE 2025 reorganizaram o algoritmo de função diastólica, e a categoria indeterminada — aquela que fechava o laudo sem concluir nada — deixou de existir. Um estudo multicêntrico retrospectivo aplicou os dois algoritmos, 2016 e 2025, nos mesmos 2.058 idosos internados para cirurgia, sem sintoma cardíaco e com FE preservada.
A prevalência de disfunção diastólica passou de 24% para 29,3%. Os 12,8% que o algoritmo de 2016 deixava indeterminados foram redistribuídos: 80 para normal, 108 para grau 1 e 76 para grau 2. A concordância global entre os dois métodos foi de 75,3%, com kappa 0,441 — um em cada quatro exames muda de categoria conforme o algoritmo aplicado.
O que isso faz com o seu dia: o laudo pré-operatório passa a classificar mais gente como alterada, e boa parte dos indeterminados sai com grau atribuído. Antes de comparar exames seriados de um mesmo paciente, confirme qual versão o serviço estava usando em cada um.
Prevenção · lípides
A placa encolhe com PCSK9. Isso é o mesmo que evitar infarto?
Revisão sistemática com metanálise de 10 estudos de imagem intravascular, 1.642 pacientes tratados com inibidores de PCSK9. O volume percentual de ateroma caiu 1,03%; a capa fibrosa engrossou 28,44 µm — capa mais espessa é o marcador de imagem associado a menor propensão à ruptura. A carga lipídica da placa também diminuiu.
Os três achados apontam na mesma direção, e todos são de imagem. Regressão de placa é desfecho substituto: sustenta a plausibilidade mecanística — a droga faz na parede da artéria o que a teoria previa — mas não ocupa o lugar de um ensaio com desfecho clínico. Placa menor no OCT não é infarto evitado, e o achado não amplia indicação.
Onde ele serve: na conversa de consultório. Dá para explicar ao paciente o que a droga faz dentro da artéria, sem prometer o que este estudo não mediu.
Use isso hoje
Quando discutir retirada de terapia no paciente com FE recuperada, nomeie a classe. O aumento de mortalidade descrito — RR 1,50 (IC95% 1,09–2,07) — refere-se à retirada do bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona isoladamente; a retirada de betabloqueador sozinho não alterou mortalidade nas mesmas análises. Dizer "não pode parar a terapia otimizada" e dizer "não pode parar o inibidor do SRAA" não são a mesma frase, e a troca inverte a conduta à beira do leito.
E antes de suspender qualquer coisa, escreva duas linhas no prontuário: qual foi a causa da disfunção e se essa causa foi removida. É a pergunta que decide, e quase nunca é a primeira a ser feita.
O RR 1,50 vem de evidência agregada majoritariamente observacional, não de ensaio randomizado — trate-o como sinal de direção, não como estimativa de efeito.