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CASO CLÍNICO · IMAGEM CARDIOVASCULAR

Derrame pericárdico em paciente imunossuprimido: quando drenar?

Um raciocínio diagnóstico detalhado sobre a avaliação de drenagem pericárdica em pacientes com alto risco imunológico.

Nível · Residente R3 / cardiologista jovem   Leitura · 7 minutos   Pilar · Casos · Imagem

Em um paciente imunocompetente com derrame pericárdico moderado e estável, observar costuma ser a resposta certa. Em um paciente imunossuprimido, a mesma imagem no eco é uma pergunta diferente — porque a etiologia muda, o limiar para drenagem muda, e o custo de errar para qualquer um dos lados é alto.

Este caso explora como estruturar essa decisão sem cair em duas armadilhas comuns: drenar todo derrame 'por precaução' (gerando complicação iatrogênica) ou postergar a punção em quem precisa de tecido para fechar o diagnóstico.

Apresentação clínica

Mulher, 52 anos, transplantada renal há 4 anos, em uso de tacrolimo + micofenolato + prednisona 5 mg. Procura o pronto-socorro por dispneia progressiva há 10 dias e dor torácica retroesternal pleurítica que piora ao decúbito.

EXAME FÍSICO

PA 108/72 mmHg · FC 102 bpm · SatO‰ 95% em ar ambiente · afebril. Bulhas hipofonéticas, turgência jugular discreta a 30°, sem pulso paradoxal mensurável de imediato. Sem atrito pericárdico.

ECG E LABORATÓRIO

ECG: taquicardia sinusal, baixa voltagem difusa, sem supradesnivelamento de ST típico de pericardite aguda. Sem alternância elétrica.
Laboratório: PCR 78 mg/L · troponina ultrassensível dentro do percentil 99 · NT-proBNP 1.840 pg/mL · leucócitos 9.200 · creatinina basal preservada.

Os exames complementares

Ecocardiograma transtoráccico

  • Derrame pericárdico circunferencial, predomínio posterior, espessura máxima em diástole de 22 mm na parede livre do VD
  • Sem coágulos ou ecos densos sugerindo organização
  • Colapso diastólico do AD presente em mais de um terço do ciclo
  • Colapso protodiastólico breve de VD
  • VCI 23 mm com colapso inspiratório < 50%
  • Variação respiratória do fluxo mitral 28%, do fluxo tricúspide 42%
  • FEVE 58%, sem disfunção segmentar

Pulso paradoxal medido: 14 mmHg.

O DILEMA

A paciente não está em choque. E agora?

Está estável, conversando, perfundida. Mas tem:

  1. Derrame grande (> 20 mm) em imunossuprimida
  2. Sinais ecográficos de comprometimento hemodinâmico precoce (colapso de AD prolongado, VCI plethorica, variação respiratória > 25% no fluxo mitral)
  3. Pulso paradoxal borderline, em janela em que a fisiologia de tamponamento pode evoluir nas próximas horas
  4. Etiologia desconhecida — em transplantada renal, a lista de diferenciais com manejo radicalmente diferente é longa: viral (CMV reativado), bacteriana/purulenta, tuberculosa, fúngica, neoplásica (PTLD), urêmica residual, induzida por droga

A pergunta não é "ela tem tamponamento?". É: a pericardiocentese muda o desfecho — terapêutico, diagnóstico, ou ambos?

Raciocínio estruturado

7.1 — Existe indicação hemodinâmica?

Tamponamento é diagnóstico clínico, não ecográfico. A diretriz ESC 2015 sobre doenças do pericárdio reforça: colapso de câmaras direitas tem alta sensibilidade (precoce) mas baixa especificidade — pode estar presente sem repercussão clínica significativa.

Esta paciente está no que Imazio chama de "tamponamento subagudo de baixa pressão" — a clínica é discreta porque o acúmulo foi gradual e a complacência pericárdica acomodou volume. Mas as variações respiratórias > 25% no fluxo mitral e o pulso paradoxal de 14 mmHg indicam que ela está perto da inflexão da curva pressão-volume. Pequenos volumes adicionais geram grandes variações de pressão.

Veredito: indicação relativa, com tendência a drenar.

7.2 — Existe indicação diagnóstica?

Em imunossuprimido com derrame de etiologia indefinida, a probabilidade pré-teste de causa que exige tratamento específico é substancialmente maior. Em particular:

  • Tuberculose pericárdica: no Brasil, deve ser considerada em todo derrame moderado-grave em imunossuprimido. O líquido pericárdico permite ADA, baciloscopia, GeneXpert MTB/RIF e cultura.
  • Pericardite purulenta: mortalidade > 40% sem drenagem precoce. Não dá para esperar.
  • PTLD: citologia e imunofenotipagem do líquido podem antecipar o diagnóstico em semanas.

A Triage Score for Pericardial Effusion (TSPE) de Imazio (2020) estratifica risco e indicação de drenagem. Imunossupressão é critério de risco maior.

7.3 — O risco do procedimento é aceitável?

Pericardiocentese guiada por eco em centro experiente tem taxa de complicações maiores < 1,2%. O derrame é circunferencial e acessível pela janela subxifóide ou apical. O risco-benefício pende para drenar.

Decisão e desfecho

A paciente foi submetida a pericardiocentese guiada por eco. Drenados 480 mL de líquido seroso turvo, com colocação de cateter pigtail.

ANÁLISE DO LÍQUIDO PERICÁRDICO

  • Exsudato linfocitário (linfócitos 78%)
  • ADA 62 U/L (referência > 40 U/L sugestivo de TB)
  • GeneXpert MTB/RIF positivo
  • Cultura para BK em curso

Diagnóstico: pericardite tuberculosa em imunossuprimida. Iniciado RHZE com ajuste de tacrolimo (interação com rifampicina), corticoide adjuvante conforme protocolo, e seguimento com eco seriado para monitorar evolução para constrição.

3 pontos para a beira do leito

USE ISSO HOJE

1

Em derrame pericárdico em imunossuprimido, a pergunta "drenar?" não se reduz à hemodinâmica — o eixo diagnóstico pesa tanto quanto o hemodinâmico, especialmente no Brasil, onde TB pericárdica permanece relevante.

2

Variação respiratória > 25% no fluxo mitral e VCI plethorica são sinais ecográficos de fisiologia em transição, mesmo com PA preservada. Não espere o paciente fazer choque para reavaliar a indicação.

3

Sempre que drenar, mande o líquido completo: bioquímica, citologia, ADA, baciloscopia, GeneXpert, cultura para germes comuns/BK/fungos, PCR para CMV/EBV. Uma única punção que não rende diagnóstico vira semanas de incerteza.

Checklist do plantão

Diante de derrame pericárdico moderado-grave em imunossuprimido, antes de decidir conduta, responda:

O paciente tem sinais clínicos de tamponamento (mesmo discretos)?

Há sinais ecográficos de fisiologia de transição (colapso de câmaras + VCI + variação respiratório)?

A etiologia está definida ou é uma incógnita?

O contexto epidemiológico aumenta a probabilidade de causa tratável (TB, fúngica, PTLD)?

Se duas ou mais respostas pesarem para "drenar", a discussão deixa de ser "se" e passa a ser "quando e onde".

O líquido vai resolver alguma dessas dúvidas?

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