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CardiologyInsights

Edição #3 • 5 min de leitura

RISCO CARDIOVASCULAR • PREVENÇÃO

Anabolizantes e o coração: além da hipertrofia

O uso de esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) deixou de ser restrito a atletas de elite — é cada vez mais frequente entre praticantes recreativos de musculação, muitos com menos de 35 anos. O cardiologista os atende com frequência, em geral por outra queixa e sem que o uso seja relatado de forma espontânea. A pergunta que eles trazem — 'qual a dose segura?' — não tem boa resposta quando o objetivo é estético. No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição com essa finalidade.

O insight da semana

"EAA não é 'hipertrofia muscular com um efeito colateral cardíaco'. É um agente que remodela o miocárdio e acelera a aterosclerose — e parte do dano pode persistir após a suspensão."

Em estudo transversal com 140 halterofilistas (Baggish et al., Circulation 2017), usuários tinham fração de ejeção mais baixa (FE média 52% vs. 63%), pior função diastólica e maior volume de placa coronariana — com a carga de aterosclerose associada à dose acumulada. Em coorte nacional dinamarquesa (Windfeld-Mathiasen et al., Circulation 2025; 1.189 usuários vs. ~59.450 controles), o uso associou-se a maior risco de cardiomiopatia, insuficiência cardíaca, infarto, tromboembolismo venoso e arritmias.

Dois pontos, sem exagerar nem minimizar. São dados observacionais: mostram associação forte e dose-dependente, não permitem calcular NNT como em um ensaio randomizado. E, ao contrário do que muitos pacientes assumem, a disfunção sistólica foi descrita também em ex-usuários (Abdullah et al., Eur J Prev Cardiol 2024) — parar reduz a exposição, mas não garante normalização.

Caso rápido

Homem, 32 anos. Praticante de musculação, assintomático, vem para 'check-up' antes de uma competição amadora. Relata, quando perguntado diretamente, quatro anos de ciclos de EAA com 'TPC' entre eles. Pergunta, textualmente: 'uso só em ciclo e faço a TPC certinho — está controlado, né? Tem uma dose segura? E, se eu parar, volta tudo ao normal?'. Exame: PA 148/92 mmHg. Eco com hipertrofia concêntrica de VE, FE limítrofe (50%), strain longitudinal global reduzido. LDL elevado, HDL muito baixo. Hematócrito no limite superior.

Pergunta: como conduzir — e como responder às três dúvidas dele?

COMENTÁRIO

As três premissas são equívocos comuns. (1) 'Controlado porque uso ciclo + TPC': a TPC visa recuperar o eixo hormonal, não reverte remodelamento miocárdico nem aterosclerose já instalada. (2) 'Existe dose segura': para fins estéticos, não há dose com benefício comprovado e segurança estabelecida — é o que fundamenta a vedação do CFM (Resolução nº 2.333/2023). (3) 'Se eu parar, volta ao normal': a recuperação é variável e há disfunção sistólica persistente descrita em ex-usuários. A conduta não é alarmar: é nomear o EAA como fator de risco modificável, orientar a suspensão, estratificar o risco (PA, lipídios, eco com strain, hematócrito) e articular acompanhamento multiprofissional. A pergunta correta deixa de ser 'qual a dose segura?' e passa a ser 'como reduzir um risco que o coração nem sempre sinaliza?'.

Diretriz em 5 linhas

No Brasil, a Resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição de terapias com EAA para fins estéticos, ganho de massa ou desempenho esportivo — por ausência de comprovação de benefício e segurança. A ANVISA restringe a venda a farmácias regularizadas mediante receituário de controle especial e fiscaliza o desvio de insumos. A SBEM mantém posicionamento contrário ao uso com essas finalidades. A FDA determinou alteração de bula (classwide labeling) para testosterona e EAA alertando para eventos cardiovasculares.

Implicação prática: não existe 'ciclo seguro' para fins estéticos. O papel do cardiologista é rastrear, orientar a suspensão e tratar o risco — não chancelar o uso.

Checklist — avaliação do usuário de EAA

☐ Perguntar ativamente sobre EAA, SARMs e hormônios — muitos não relatam de forma espontânea.
☐ Pressão arterial e perfil lipídico — rastrear HAS e o padrão de queda de HDL com elevação de LDL.
☐ Ecocardiograma com strain longitudinal global — detecta disfunção subclínica antes da queda da FE.
☐ Hemograma (hematócrito/hemoglobina) — policitemia eleva o risco trombótico.
☐ Orientar suspensão e encaminhar para abordagem multiprofissional; reavaliar após a cessação, sem prometer normalização completa.

Imagem cardiovascular

A imagem ajuda a mostrar dano objetivo ao paciente. No eco, o strain longitudinal global identifica disfunção sistólica subclínica quando a FE ainda parece 'normal' — útil no usuário jovem que se diz assintomático. A angiotomografia de coronárias tem documentado maior volume de placa não calcificada, de forma dose-dependente e em idade precoce. Em paciente com hipertrofia concêntrica de VE desproporcional ao treino e strain reduzido, o uso de EAA deve entrar no diagnóstico diferencial — e ser perguntado.

IA em cardiologia

Há pesquisa ativa aplicando IA a eco e ECG para detectar cardiomiopatia subclínica e alterações de strain que escapam à leitura convencional — potencialmente útil para sinalizar usuários em risco antes dos sintomas. São ferramentas em validação, não para decisão isolada à beira do leito. O melhor 'detector' hoje segue sendo a anamnese que pergunta diretamente sobre o uso.

Princípio editorial do CardiologyInsights: IA assistida, sempre revisada — nunca automática.

Leitura recomendada

1. Baggish AL, et al. Circulation 2017 — Cardiovascular Toxicity of Illicit Anabolic-Androgenic Steroid Use (DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.116.026945).

2. Windfeld-Mathiasen J, et al. Circulation 2025 — Cardiovascular Disease in Anabolic Androgenic Steroid Users (DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.124.071117).

3. Resolução CFM nº 2.333/2023 — veda a prescrição de EAA para fins estéticos, ganho de massa e desempenho (texto oficial no Portal CFM).

CardiologyInsights

Edição #3 • 5 min de leitura

"O paciente pergunta qual é a dose segura. A resposta honesta, hoje, é que para fins estéticos não existe — e o coração nem sempre avisa antes."

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